quarta-feira, 5 de março de 2014

Dez Mil



Dez mil maneiras para se ser feliz,
dez mil a mais para gerar rancor.
Dez mil questões de aprendiz,
respondidas pelo mestre, que diz,
vai em frente, seja o caminho que for.

Dez mil razões para nadar no suor
de trabalho e desejo de vida eterna.
Mais dez mil de ansiedade a se opor,
no meio da minha máquina a vapor
de expectativa e agonia interna.

Dez mil poemas, dez mil maneiras
que soam tal e qual como as primeiras,
teorias e teoremas, tudo num só.

Dez mil vidas de retornos e idas,
e mais todas aquelas que foram lidas.
A alma nunca nos deixa virar pó.


Escrito por mim, André Pereira dos Santos, no dia 5 de Março de 2014

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Paisagem



É sufocante a pressão do tempo,
o passar das horas mais inúteis,
o passo largo do momento,
e ao pensar na falta de alento,
passa, irreversível, como nuvens.

Tem calma coração,
que palpitas com a exclusiva razão
de palpitar…

Tem calma, minha respiração,
que condenas a minha circulação,
que nada mais faz que circular.

E prende-se todos os males no meu peito,
toda a dor, no meu ser sem jeito,
no meu sangue que bombeia inocente.

Bomba-relógio, e sempre a contar,
sem qualquer decência de me informar
a hora mais provável que arrebente…

Tão pior que tudo era,
se o soubéssemos de antemão!
Só o caos e a confusão
que tal notícia gera
faz-me pensar numa triagem:

Todo o hoje é o que ontem era,
e o presente que num futuro opera
por momentos… tudo o resto é paisagem.


Escrito por mim, André Pereira dos Santos, no dia 2 de Fevereiro de 2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Palhaço que Chora

(Personagem entra em cena só com um banco, vestido como um palhaço mas com a maquilhagem borrada. Pousa o banco e senta-se nele calmamente. Depois de uma pausa, encara o público)


Às vezes gostava que o mundo nos desse pistas…
Sei que às vezes ele acaba por fazê-lo, mas queria que o fizesse até para pessoas como eu, menos perspicazes, conseguirem entender.

Eu tenho noção que o trilho é atribulado, que existem obstáculos difíceis de contornar, desilusões difíceis de aceitar e lidar, mambos que inevitavelmente nos fazem tossir sangue, numa taquicardia tão intensa que nos faz estagnar, cambalear…

Sinto-me desequilibrado, mais do que alguma vez fui e não num muito bom sentido: oscilo entre a depressão intensa, lembranças saudosistas do que não posso voltar a agarrar, e o palhaço sorridente que tanta gente vê… Esse palhaço que hoje, como há uns dias para cá, tem ficado na sua toca, no seu circo perdido no buraco negro do meu cérebro…

Mas eu só queria uma pista, visível, que fizesse os meus olhos brilharem, algo certo e concreto que fizesse a minha boca abrir com espanto e dizer: É isso! Mas é tudo tão incerto, tão irremediavelmente doloroso… O palhaço que tanto sorri, tenta que eu pouco pense, que viva no momento presente e mais nenhum, mas a minha outra veia teima para pensar e repensar, cada movimento, e sinto que cada vez vou-me prendendo mais. GRRRR que raiva! Que frustração! Teimar em querer coisas da maneira que fantasio na minha utopia irrealista e sobrenatural, onde foi toda a minha realidade?

É isso que hoje sinto: Realidade. E acho que estou a vislumbrá-la pior do que ela realmente é… Melhor assim. Ao menos preparo-me para o pior, talvez o melhor ganhe um novo significado…
Agora vou… já vejo o palhaço que sorri a tentar sair. Eu vou para dentro. Voltarei em breve.


Eu volto sempre.


Escrito por mim, André Pereira dos Santos, no dia 27 de Janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Como uma Pena



Perdido num nevoeiro denso,
sem um palmo certo de visão,
caminho pelo matagal, tenso,
de eucalipto é este incenso
que cheiro sem dar atenção.

Aparento estar sozinho.
É o que diz a minha compreensão.
Não sinto qualquer ruído vizinho,
nem vejo o rasto de linho
deixado por D. Sebastião.

Respiro diafragmaticamente,
e procuro a minha calma interna.
Quero largar o peso que me prende,
e ficar leve como uma pena.

Dúvida, incerteza…
Só densificam esta maldita neblina,
eliminam toda e qualquer clareza.
Talvez seja esta a minha sina.

Mas floresta tão pura, tão plena,
que se alimenta do meu dilema,
acompanha-me nesta luta!

E levito na leveza de uma pena,
como se fosse do filme, a cena
daquele final, onde tudo resulta.


Escrito por mim, André Pereira dos Santos, no dia 2 de Janeiro de 2014

sábado, 23 de novembro de 2013

Na Lama


Eu sei que dias não são dias,
que somos o que fazemos de nós,
cada momento repleto de suas magias,
qual mundo encantado e Feiticeiro de Oz.

E sei que a negritude destas nuvens
que se acumulam na minha atmosfera,
são passageiras, e tal como surgem
também desaparecem para uma nova era.

Eu sei que eventualmente,
olharei para trás com um sorriso,
para este dia, hoje, dos maiores tormentos.

E sei que no futuro, isto não será presente.
É apenas um pouco de lama no meu piso,
e puxa-me o riso, momentos lamacentos.


Por mim, André Pereira dos Santos, no dia 24 de Novembro de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

Confesso

Confesso: Amo a escrita.
Mas não escrevo bem sempre.
Nem sei se bem escrevo. Acredita,
às vezes a não vontade é insolente.

Parece tão mal que mal pareci.
Não, não leias este péssimo verso!
A frase não captou o que senti,
captou-o apenas o universo!

Oh esquece. Que vergonha!
Poema escrito do meu engano.
Mas, escrita celestial ou medonha,
é por isso mesmo que a amo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Inocência

Desde os vales da nossa infância, vales coloridos, cheios de fauna e flora variadas e puras, até ao cume das montanhas que circundam o vale, há uma viagem digna de se falar e de se respeitar, uma jornada dura e cheia de obstáculos que teimam em não nos deixar ver a vista que o topo dessas colinas nos permitem vislumbrar. Ao iniciarmos a demanda, essa colossal subida, somos apenas crianças sem qualquer tipo de valor moral, reagindo puramente de acordo com os nossos sentidos, do nosso egoísmo, num estado de natural sobrevivência. Ao subir deparamo-nos com várias perspectivas, começamos a entender que não estamos sós e que existe algo mais à nossa volta que não nos permite agir de acordo com o nosso sentido primitivo, então mascaramo-lo por detrás de múltiplas razões, palavras, comportamentos, roupas que, ou nos ficam demasiado largas, ou curtas demais. Reparamos que o belo Éden do vale ficou para trás e que a subida era insensível, dura, tão instável que um passo em falso far-nos-ia ir de encontro à nossa morte social, à nossa segregação, à nossa exclusão. Então deitamos fora, a nossa inocência, inconscientes que tudo o que aquele vale foi para nós seria tudo o que realmente nos restava. A jornada parece interminável, encontramos sempre alguém que nos ajude no caminho, mas também encontramos quem apenas nos quer pisar a mão, quando na realidade, precisamos da sua. O pico está próximo, cada vez mais próximo e aumenta a ansiedade. As feridas são muitas, e as aprendizagens também as foram. Já levamos experiência de escalada, já sabemos como andar na montanha. Quando chegamos e olhamos para o céu azul na distância, para as ondas brancas das nuvens, notamos que no outro lado da montanha, no ponto oposto ao vale da nossa infância, encontra-se exactamente o mesmo vale. Então, vamos ao seu encontro, livres. Sem medo do que há-de vir, nem receio do que já passou. E, assim, voltamos ao encontro da nossa inocência.